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Apaixonado por literatura!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

POESIA QUASE TRISTE

Perdi os rumos de mim,
Por isso vagueio assim,
Buscando o abrigo de um porto.
Ostento profundas rugas
E as cicatrizes das fugas
Deste meu “eu” triste e torto.

Trago um tormento previsto
Nas chagas de um velho cristo
Que se projeta em meu rosto.
Trago os sonhos destroçados
Pelos tufões indomados
Que o destino tem imposto.

Mas trago (bendita seja!)
A inspiração benfazeja
De uma poesia rimada.
Gerada dentro da alma,
É meiga filha que acalma
A hostilidade da estrada!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O CÃO E O MENINO

Na calma manhã de outono,
à brisa morna que passa,
vai um cachorro sem dono
vagando, solto, na praça.

Com seu rabinho inquieto,
às vezes, para e se estica,
ergue as orelhas e, ereto,
não sabe se vai... se fica...

Num gesto bem displicente,
um travesso menininho
oferta ao cão, de repente,
um cafuné no focinho.

O cão, com grande alegria,
lambendo a mão da criança,
late, pula e rodopia,
numa imitação de dança.

E os dois, em paz com o destino,
brincam na manhã de outono;
um, sem pensar que é menino
e o outro, que é cão sem dono!

sábado, 18 de dezembro de 2010

DUALIDADE

Uma parte de mim, que é só poesia,
e que vive vagando pelo espaço,
não possui o pesar de uma agonia,
nem se entrega à tortura do cansaço.

Outra parte, que é pura anatomia,
que se arrasta no chão de passo em passo,
traz a sombra tristonha da apatia
de manter-se nas teias do embaraço.

E, tentando escapar do duplo ofício
de ser fria razão e sonho leve,
cada parte de mim é um precipício...

Para ter, cada parte, um tempo breve,
uma parte pratica este exercício
de apagar o que a outra parte escreve.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CICLO DA VIDA

O tempo acumula, nas horas vividas,
as graves feridas que o mundo oferece,
porém armazena também a ventura,
a doce ternura que à alma enternece.

Da infância inocente perduram os sonhos
dos anos risonhos, repletos de alvores...
as cismas voláteis, risíveis projetos
- pilares secretos de ingênuos amores -.

E na juventude a robusta pujança
da luz da esperança a apontar sempre à frente...
A alma radiosa é um farto celeiro
e o mundo um canteiro esperando a semente.

E chega a velhice trazendo o sossego,
o terno aconchego da brisa outonal...
Os sábios conselhos da longa vivência
e a lenta cadência do tempo final.

Depois vem o sono da breve passagem,
a nova paisagem da vida a se abrir...
A morte do corpo a alma liberta
e Deus nos oferta um novo porvir!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

SONETO DE RENOVAÇÃO

Hoje é sutil a dor que te reclama
e no meu peito insere nostalgia,
feito uma aragem suave ao fim do dia
que, num sussurro, por teu nome chama.

Hoje, restrita à vã fisionomia,
tua lembrança não é viva chama,
mas sou ainda aquele que te ama
e vive desprovido de alegria.

A vida passa e todo o sentimento
decai vencido pelo esquecimento,
quando largado à solidão da espera...

No entanto, resistente a toda prova,
o meu amor é flor que se renova
a cada vez que surge a primavera!

sábado, 27 de novembro de 2010

INVASÃO

Como um velho arquipélago sagrado,
perdido em meio ao mar, ermo, deserto,
meu coração, distante e sossegado,
somente à solidão mantém-se aberto.

Qual fosse um visitante indesejado,
teu coração o meu tem descoberto,
intruso, impertinente e desastrado,
roubando o meu sossego outrora certo.

E vem trazendo um turbilhão consigo
a revolver meu solo incauto e virgem
e a destroçar a paz que eu possuía...


Mas, vem de um modo estranhamente amigo
e traz-me a sensação de uma vertigem
que oscila entre a repulsa e a euforia!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

FOLHAS

As tantas folhas amarelecidas
que se desprendem da árvore copada
e seguem soltas pelas avenidas
ao sopro audaz da brisa descuidada

lembram meus sonhos, ilusões vencidas
pela razão da vida transtornada;
musas de amor do peito desprendidas,
parte de um todo reduzido ao nada.

Nem sempre a vida nos oferta escolhas,
visto que, às vezes, poderosa mão
leva projetos, ilusões e folhas...

E como o sonho, que se alteia em vão,
fogem ligeiras, fugidias bolhas
de espumas fluidas, pela imensidão!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

VELHICE DE MÃE

Mamãe, o que é velhice?
Pergunta o filho inocente.
E a mulher, lembrando as mágoas
da dor passada e presente,
encara o filho e responde:
- Velhice é o que tenho em mim!
A criança, reparando
nos olhos de sua mãe,
grita: - Meu Deus, mamãezinha!
A velhice é linda assim?!!!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

POEMA DE RENOVAÇÃO

Feito o galho ressequido
de um velho tronco caído
à margem da rodovia,
só tenho vagas lembranças
de apagadas esperanças
que minha alma perseguia.

Mas na ramagem que resta
na ponta do galho, em festa,
cantam pássaros felizes
e na vibração sonora
minha alma sorri e chora
sobre antigas cicatrizes.

E as alegrias passadas
são sementes renovadas
que o pranto presente gera
e, no prado hospitaleiro,
transformam-se num canteiro
quando chega a primavera!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SONETO DE PURIFICAÇÃO

Hoje, que tudo é calma e suavidade;
que eu não preciso mais viver de enganos,
quero despir-me de qualquer vaidade
alimentada no correr dos anos.

Preciso submeter-me à realidade
abandonando os vícios mais insanos
dos quais fui prisioneiro em liberdade
e sobre os quais tracei todos os planos.

Hoje, não quero nada que me empeste;
não quero tolas ilusões terrenas,
tampouco esta roupagem que me veste.

Dispo-me destes trajes tão pesados
e sigo bem feliz, levando apenas
os nobres sentimentos conquistados!

sábado, 13 de novembro de 2010

TRIBUTO À VIDA

A vida é bela, embora os seus percalços,
constantemente, sejam desafios;
bem como as pedras e os percursos falsos
que existem contra os rios.

A vida é bela, mesmo que a tristeza,
essa ancestral e vã melancolia,
seja o dileto prato posto à mesa
do nosso dia a dia.

A vida é bela, embora seja o grito,
arraigado às mais íntimas carências,
toda a razão deste silêncio aflito
nas nossas insurgências.

A vida é linda, feito uma aquarela,
mesmo no instante em que se faz disforme,
quando, despindo-se do véu, revela
uma tristeza enorme.

A vida é bela em seus avisos sábios,
no ensinamento do conselho mudo;
mestra maior que, sem mover os lábios,
consegue dizer tudo.

A vida é bela porque nos eleva
à condição de doutrinados seus;
porque, através da redenção, nos leva
na direção de Deus!